segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A TEMPERANÇA



A virtude cardeal da temperança

Depois de meditar sobre a temperança em sentido amplo – a moderação necessária para todas as virtudes – consideremos agora a virtude cardeal da temperança.
O Catecismo fala das várias dimensões essa virtude. De modo geral, a define como «a virtude moral que modera a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados. Assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos dentro dos limites da honestidade» (n. 1809).
Podemos dizer, com outras palavras, que a temperança estabelece e mantém o equilíbrio, a harmonia, entre a dimensão espiritual e a dimensão corporal do homem.
Por ela, o espírito (a razão e a vontade, mais a graça do Espírito Santo) “modera” as tendências instintivas da natureza e a ânsia de prazer. Mantém equilibradas, especialmente, as tendências e prazeres ligados à autoconservação (comer, beber, descansar, sexualidade). Faz com que vivamos de acordo com a dignidade humana e com a condição de filhos de Deus.
Moderar não é anular

É importante reparar que, ao definir a temperança, o Catecismo não usa as expressões “suprime”, “reprime”, “abafa”…
O Cristianismo não é inimigo do corpo, nem do prazer. Basta pensar que Deus assumiu um corpo humano em Jesus Cristo – que nós adoramos na Eucaristia (cf. Jo 6,56) –, e que o primeiro milagre de Cristo foi a transformação da água em vinho, em Caná, para que não se perdesse a alegria de um banquete de casamento (Jo 2,1ss).
Por isso, Santo Tomás de Aquino falava do “pecado da insensibilidade”, que se dá quando «se rejeita o prazer, a ponto de abandonar as coisas que são necessárias à conservação da natureza»; e até afirmava que «se alguém se abstivesse do vinho de tal maneira que com isso prejudicasse a natureza, não estaria livre de culpa» (Suma Teológica, 2-2,142,1 e 153,4)
Dizer que a matéria e o corpo são maus é uma afirmação própria da heresia do maniqueísmo, é anticristã. Justamente porque o corpo é criado por Deus, porque é um grande dom de Deus, é necessário mantê-lo equilibrado dentro de seu bem razoável, a fim de que nem os abusos, nem as deturpações, nem as loucuras o aviltem ou o estraguem. Esta é a função da virtude da temperança.
Alguém dizia que, simbolicamente, Deus pôs o homem em pé, para que entendesse que a cabeça está por cima do resto: a cabeça está por cima do coração; e cabeça e coração, por cima do ventre e do sexo. Transtornar essa ordem, colocando a gula ou o sexo acima do coração (do amor) e da cabeça (num plano meramente instintivo e irracional), isso é degradar o homem.
A ordem e a desordem no prazer

            Ao texto acima citado, o Catecismo acrescenta que «a pessoa temperante guarda uma santa discrição e não se deixa arrastar pelas paixões» (cf. n. 1809).
Vida virtuosa é “vida em ordem”, guiada pela razão e pelas luzes de Deus. O pecado é uma desordem: a falta de harmonia com Deus, com a verdade e com o bem.
Em que consiste a desordem, em matéria de temperança?  Fundamentalmente em três coisas:
A) Usar o que existe para o bem como instrumento para o mal.
Pensemos que, em geral, o homem pode usar as suas mais nobres faculdades, a inteligência e a vontade, para o mal: para criar armas de destruição em massa, ou planejar e executar guerras, crimes e injustiças.
A intemperança reflete esse tipo de desordem:
a) transformar aquilo que existe para servir à vida – o alimento e a bebida – em instrumento do mal, que leva a perder o a saúde física e psíquica;
b) usar o sexo, que é manifestação santa de amor entre os esposos e colaboração com Deus criador, em mero gozo sem responsabilidade, ou em crime (abuso de menores), ou em adultério e traição.
B) Transformar o que existe para “servir” em tirano que escraviza.
Comida, bebida, sexo, são, no plano de Deus criador, “servidores” da vida e do amor.
Quando descambam e se tornam um vício egoísta, uma obsessão doentia, então o “servidor” vira “amo e senhor” que escraviza.
O viciado alega que é livre, mas engana-se. Quando pratica os vícios ligados ao prazer físico, diz que faz o que quer, porque é livre, mas só faz o que não consegue deixar de fazer: já não tem mais o poder de “não querer”; tornou-se escravo (do crack, do álcool, do sexo obsessivo-compulsivo, etc).
C) Transformar os meios em fins
Transformar um meio em fim é o máximo da desordem, que já percebemos nas considerações anteriores. É conhecida a frase de que “alguns, em vez de comer para viver, vivem para comer”.  O meio de transformou em fim. Da mesma forma, há os que transformaram o sexo sem amor e sem regra na finalidade da vida (É triste ler, num texto de certa escritora conhecida por seus escassos escrúpulos morais, que “viver é copular”…).
Temperança é grandeza humana

É claro que a temperança exige o domínio sobre os desejos egoístas e abusivos. Esse domínio é conquistado pelo amor ao bem, pela petição do auxílio divino, e pela imprescindível mortificação (com atos frequentes de autodomínio).
Vale a pena transcrever as seguintes palavras de São Josemaria Escrivá sobre a temperança:
«Temperança é espírito senhoril. Nem tudo o que experimentamos no corpo e na alma deve ser deixado à rédea solta [...]. Eu quero considerar os frutos da temperança, quero ver o homem verdadeiramente homem, livre das coisas que brilham, mas não têm valor.
»Esse homem sabe prescindir do que faz mal à sua alma e apercebe-se de que o sacrifício é apenas aparente, porque, ao viver assim – com sacrifício – livra-se de muitas escravidões e no íntimo do seu coração consegue saborear todo o amor de Deus.
»A vida recupera então os matizes que a intemperança esbate. Ficamos em condições de nos preocuparmos com os outros, de compartilhar com todos as coisas pessoais, de nos dedicarmos a tarefas grandes. A temperança cria a alma sóbria, modesta, compreensiva; confere-lhe um recato natural que é sempre atraente, porque se nota na conduta o império da inteligência. A temperança não supõe limitação, mas grandeza. Há muito maior privação na intemperança, porque o coração abdica de si mesmo para ir atrás do primeiro que lhe faça soar aos ouvidos o pobre ruído de uns chocalhos de lata» (Amigos de Deus, n. 84).


Pe. Francisco Faus

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Quem é Jesus para mim?



Jesus é o Verbo Encarnado.
Jesus é o Pão da Vida.
Jesus é a Vítima oferecida pelos nossos pecados na Cruz.
Jesus é o Sacrifício oferecido na Santa Missa pelos pecados do mundo e pelos meus.
Jesus é a Palavra - para ser falada.
Jesus é a Verdade - para ser dita.
Jesus é o Caminho - para ser percorrido. 
Jesus é a Luz -  para ser acesa.

Jesus é a Vida - para ser vivida.
Jesus é o Amor - para ser amado.
Jesus é a Alegria -  para ser compartilhada.
Jesus é o Sacrifício - para ser oferecido.
Jesus é a Paz - para ser dada.
Jesus é o Pão da Vida - para ser comido.
Jesus é o Faminto - para ser alimentado.
Jesus é o Sedento - para ser saciado.
Jesus é o Despido - para ser vestido.
Jesus é o Desabrigado - para ser acolhido.
Jesus é o Doente - para ser curado.
Jesus é o Solitário - para ser amado.
Jesus é o Indesejado - para ser desejado.
Jesus é o Leproso - para as chagas limparmos.
Jesus é o Pedinte - para um sorriso lhe darmos.
Jesus é o Bêbado - para o escutarmos.
Jesus é o Deficiente Mental - para o protegermos.
Jesus é o Pequenino - para o abraçarmos.
Jesus é o Cego - para o conduzirmos.
Jesus é o Mudo - para por ele falarmos.
Jesus é o Aleijado - para por ele caminharmos.
Jesus é o Dependente de Drogas - para seu amigo nos tornarmos.
Jesus é a Prostituta - para do perigo a afastarmos e sua amiga nos tornamos.
Jesus é o Preso - para ser visitado.
Jesus é o Idoso - para ser servido.

PARA MIM

Jesus é o meu Deus.
Jesus é o meu Esposo.
Jesus é a minha Vida.
Jesus é o meu único Amor.
Jesus é o meu Tudo em Todo.
Jesus é o meu Tudo.
Jesus, eu o amo com todo o meu coração, com todo o meu ser.
Dei-Lhe tudo, até os meus pecados, e Ele me desposou em ternura e amor.
Agora e por toda a minha vida sou a esposa do meu Esposo Crucificado, Amém!

Resposta de Madre Teresa de Calcutá, à Jesus - Extraído do livro: Madre Teresa, venha seja a minha luz.


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Vai nascer o "Sol"!


"Graças à ternura e misericórdia de nosso Deus, que nos vai trazer do alto a visita do Sol nascente"Lc1, 78!

Maria Santíssima por meio do seu sim, nos traz o Seu filho Jesus, o nosso Salvador e Redentor! hoje, Tempo tão esperado por todos que cremos N"Esta Verdade, Jesus Cristo! Ele é o nosso Sol, o Sol que nasce em nossas vidas e vem iluminar todos nós! 

O nosso Deus, é um Deus de misericórdia que nos acolhe diariamente e nos faz reconher quem verdadeiramente somos. Esse sol que vem nos iluminar, nos leva não somente a reconhecer que Ele é o Deus das nossas vidas, como também que nada é mais importante do que Ele, como nos ensina em Sua lei: Amai a Deus sob todas as coisas!

Jesus, nosso Sol, é o Pai dos pobres, ou seja, é o Pai daqueles que o acolhem como Pai, que o reconhecem como seu Senhor! Pai de todos aqueles que clamam "Jesus Filho de Davi tem piedade de Mim"!Porque aquele que é pobre, é necessitado da graça de Deus, da Sua ternura e Misericórdia!É aquele que confia e deixa Deus conduzir sua vida, esvaziando de tudo que lhe prende, para que somente Deus o preencha, em todo o seu ser, e em toda a sua alma. 

O nosso Sol, que se aproxima, Jesus, é enviado por Deus, por meio de Maria Santíssima! "E para que Ele fosse "capaz" de compreender os pobres, Ele teve que conhecer e experimentar essa pobreza no Seu próprio corpo e na Sua alma. Também nós devemos experimentar a pobreza se quisermos ser verdadeiros portadores do Amor de Deus!(Madre Tereza de Calcutá)! Se quisermos, enfim, ser luz para o próximo, ser luz para o mundo!

Portanto, que possamos refletir Nesta Natal, sob o Sol que vem, sob Jesus que se dá a nós...o que devo fazer para ser luz no mundo? o que devo fazer para ser pobre de espirito, como nos ensina Nosso Senhor Jesus Cristo, como nos ensina Sua Santíssima Mãe! Feliz Natal, com o Sol que nasce...!

Andréa Lustosa, Missionária e Formadora na Magnificat

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Não queira o que não lhe pertence!



"Numa só palavra de Deus compreendi duas coisas: a Deus pertence o poder, ao Senhor pertence a bondade".  Sl 61,12-13a.


Tudo é de Deus, tudo O pertence, muitas vezes queremos tomar o que é de Deus, queremos ser deus em Seu lugar! Porque reter o que não é nosso? Porque não deixamos que Deus venha conduzir nossas vidas? Retemos o que é de Deus como se fosse nosso! Por exemplo, se você tem um objeto e alguém lhe pede emprestado, então, o correto seria, devolvê-lo depois de utilizá-lo,  já que o mesmo não o pertence! Porém, se acontece ao contrário, e tomam posse daquele objeto como se fosse "o dono", mesmo sabendo que não o é... Então, se a pessoa tem a consciência que o objeto não o pertence, e mesmo sem "precisar" mais dele, não devolve ao seu verdadeiro "dono", simplesmente, porque resolve querer ficar e  ter o controle do objeto. Sendo assim, o querer, a vontade "falou" mais alto. Enfim, querer ter o controle do que não o pertence! 

É assim que fazemos, por vezes, com Deus! Deus é o nosso dono, às vezes, tomamos o encargo de não permitir que O seja, deixando prevalecer a nossa vontade, o nosso querer: "eu, eu, e eu, eu conduzo, eu mando, eu faço, tudo do meu jeito, porque eu estou no controle, e determino como as coisas tem que acontecer, mesmo sem me pertencer"! Se observarmos, se pararmos para rezar, e pedir ao Senhor por meio da Virgem Maria que nos revele "nosso fundo mal", como diz, São Luis Maria Grignion de Montfort, iremos vê que há ambição, egoísmo, e contudo o poder, o poder que tomamos de Deus, o poder que pertence unicamente a Deus! Perceberemos que tomamos posse do que não nos pertence e retiramos dessa forma, o que é de Deus, ou seja, "retiramos" o Senhor de nossa presença, permitindo que prevaleça a nossa vontade, o nosso querer! Nesse caso quem vai controlar a nossa vida são os nossos sentidos, então a nossa inteligência vai dizer a nossa vontade: " esse objeto não é meu, mas agora estou sob sua "posse", gostaria que fosse meu, isso me dói, mas consegui "obtê-lo", agora que o tenho, não importa... posso fazer o que quiser com ele, porque ele está no meu controle"...você deve está se perguntado agora, mais que "loucura é essa?"! No entanto, é isso mesmo que acontece, quando queremos, e tomamos posse do que não nos pertence! 

A nossa vida, tudo pertence a Deus! O poder, a bondade vem unicamente D'Ele, por isso, devemos deixar que Ele conduza nossa vida e tudo que há nela, não permitindo, muitas vezes, que a nossa afetividade, ou seja, as coisas que nos afetam, controlem nossa vida, fazendo com que nossa vontade prevaleça! 

Portanto,devemos nos encher de Deus, permitindo que nossos afetos, carências, não determinem, nem tomem o controle da nossa vida, do que está ao nosso redor! Nada nos pertence, tudo é de Deus, veio D'Ele e retornará para Ele. Ele  é o nosso dono, o nosso condutor, é preciso ter Essa confiança, é preciso despojarmos para que tenhamos Vida! Para se viver em paz, é preciso deixar que o principe da Paz tome o Seu lugar, Ele é o Todo Poderoso, somente Ele é Bom, somente Ele nos levará ao Melhor caminho! Ainda que tenhamos que passar por espinhos, vai doer, mas sarará, pois, um ferimento quando tratado com todo cuidado e zelo, vem a sarar, assim Deus o permita. Contudo, nós filhos de  Deus, Deus que é Amor, que é Bom, que tem o Poder, fará o Melhor. Qual é o pai que não quer o bem do seu filho?! Deixemos que Deus cuide e zele por tudo, por "nossas" vidas, vidas que pertence unicamente a Ele. Peçamos Essa graça(....)e deixemos ser conduzidos e controlados por um Deus que é Amor! Bendito seja Deus, Bendita seja Sua Santíssima Mãe. Amém! 

Andréa Lustosa - Missionária e formadora na Comunidade Magnificat

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A Experiência do Perdão


O perdão sincero e carinhoso é um acontecimento extraordinário, que acontece poucas vezes em nossa vida. Não é nada habitual que perdoemos ou que peçamos perdão aos nossos semelhantes.

O perdão e o arrependimento talvez sejam sentimentos excessivos para a nossa cultura burguesa, moralizada, profissionalizada e objetivada, para a qual as exaltações incontroladas são mal vistas, ainda mais quando provêm de um sentido profundo, existencial, que inevitavelmente exige a humanidade do outro.

No entanto, a superficialidade nos fascina e ficamos rolando na lama de coisas fúteis e absurdas, como a inveja, o poder, a superioridade ou a culpa – do vizinho, claro. Esta perspectiva sobre a vida confere à ideia do perdão um matiz especial, porque o converte em uma forma de vingança.

Se você sente que o caminho para perdoar começa no ponto quilométrico no qual o outro deve cumprir com a sua obrigação, tenha claro: você deseja vingança. Por isso, castigamos o ofensor com a indiferença, não o cumprimentamos mais, negando-lhe a possibilidade de compartilhar nossa comum humanidade; e, com isso, procuramos que o outro se lembre do dano que nos causou e inclusive do ódio que lhe temos.

No entanto, este castigo é ridículo. Quem não quer perdoar se vê obrigado a ficar enfiando o dedo na ferida constantemente, ampliando o dano por conta própria, muito além do que o ofensor queria ou podia fazer. Só nós podemos dar tanto poder a quem nos causou dano, por meio do rancor.

Os amantes da vingança talvez não tenham compreendido que o pior inimigo de si mesmo é esse "eu rancoroso", que consegue contaminar e determinar todo o presente com o fétido lixo de um passado que só a ele interessa. O rancor é a síndrome de Diógenes da alma humana.

Mas quem perdoa não só recupera uma relação danificada, mas renasce para o tempo presente, que estava embaçado pela recordação da ofensa.

Perdoar é uma dessas experiências nas quais descobrimos a grandeza da vida, nossa capacidade de domá-la e a beleza de uma Presença que nos acompanha e que é o que torna possível a graça do perdão, que alcança o ofensor, mas que, acima de tudo, engrandece o coração de quem perdoa.

No final das contas, receber o perdão nos liberta da culpa, mas não deixa de ser por um ato externo a nós. Perdoar nasce do nosso interior, amplia nossos horizontes e eleva a vida, porque revela o futuro com possibilidades que o rancor mantinha presas. Isso é justamente o contrário do que acontece com o rancoroso, que vive acorrentado.

Perdoar é uma experiência muito mais bela do que ser perdoado. E, para comprovar isso, não precisamos buscar referências em nenhum discurso ou autor, mas prestar atenção na própria experiência. Porém, muitas vezes não pedimos perdão porque isso nos dá medo.

Mas quem deseja o perdão se vê na necessidade de criar uma ponte, uma situação que permita que o outro se aproxime, para realizar o ato que o libertará do peso que tem sobre seus ombros. E a pessoa que faz isso é movida por um afeto renovado com relação ao "culpado" – que, na verdade, já não o é, mas ainda não sabe disso.

Evidentemente, é preciso que a pessoa seja amada de maneira excepcional, que lhe seja dada uma graça especial, para que possa imaginar que uma experiência de amor assim seja possível. Uma experiência, aliás, na qual encontramos os alicerces de um mundo novo e de uma vida nova, do mundo e da vida que realmente desejamos e que nenhuma modificação das estruturas que não atenda a este nível de profundidade poderá outorgar.



Os demais esforços ideológicos por construir uma nova realidade política não são mais que violência construída sobre critérios de poder, superioridade e culpa – do vizinho.

Fonte: Aleteia

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Água é um dos principais símbolos do Cristianismo


 

A água é um dom de Deus para todos''. São diversas as passagem bíblicas onde a água é vista como sinal da vida, sinal da presença de Deus que transforma a existência humana. "A água simboliza a eternidade justamente porque a água leva a pessoa a essa experiência de estar mergulhada na vida de Deus".

Especialmente no batismo, sacramento que é a porta de entrada à vida em comunhão com a Igreja de Cristo, que pela água o ser humano passa a ser filho de Deus, participante da vida da Trindade. "O próprio Jesus deixou-se batizar no Rio Jordão por João Batista. Ele se submeteu ao batismo para transformar nossa humanidade participante da vida de Deus. Por isso o batismo de Jesus tem um significado importante para a vida cristã”, explica o sacerdote.

Depois da Ressurreição, Jesus Cristo ordenou aos discípulos que fossem pelo mundo afora batizando as pessoas em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, por isso a palavra batismo significa mergulho, assim o batizado mergulha na vida de Deus.

São Paulo Apóstolo diz que batizar uma pessoa é mergulhá-la no mistério de Jesus. Assim esse sacramento insere os cristãos nesse mistério que se torna parte de suas vidas, transformando-os em filhos de Deus, discípulos de Jesus, membros da Igreja de Cristo. “A partir do batismo, o próprio Deus faz de nossos corações Sua morada. Recebemos por meio do batismo o dom do Espírito de Cristo Ressuscitado, ao ponto de dizermos como São Paulo 'não sou eu quem vive mais Cristo que vive em mim' (cf . Gl 2,20)".

Na cruz, uma lança transpassa o corpo de Cristo e Dele jorra sangue e água; neste momento do coração de Jesus jorra a fonte da graça. “A água simboliza o Espírito Santo que é derramado como fonte de graça para a salvação da humanidade, e o sangue de Cristo simboliza a salvação”.

Também esses dois elementos, sangue e água, simbolizam os sacramentos: a água simboliza o sacramento do batismo e o sangue, o sacramento da Eucaristia.

“Jesus no mistério da sua morte, oferece a si mesmo à humanidade no mistério do batismo e da Eucaristia. Por meio da vida sacramental da Igreja entramos em comunhão com Jesus Cristo”. 

Ele mesmo, Jesus Cristo, se descreve como fonte de água vida, fonte de vida eterna. "Aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que jorre para a vida eterna" (Jo 4, 14). "Jesus porpõe um caminho para ela ver a sua vida velha ser lavada por esta água que Ele mesmo, que renova a sua humanidade decaída e prostituida" (teólogo e diácono Paulo Lourenço) 

Em Jesus, água viva, todos podem se renovar e começar uma vida nova, restaurada e purificada, se tornarem santos, mesmo que antes do encontro com Cristo tenham cometido pecados e erros. "Em Cristo, mais precisamente pelo sacramento do batismo surge a nova humanidade, que renasce da água e do Espírito Santo". A água sempre representou  a vida, pois até biologicamente a maior parte do corpo humano é composta de água e sem água não existiria vida no planeta. "Água e vida são componentes inseparáveis de todas as realidades criadas por  Deus", salienta o diácono Lourenço.

Padre Wagner ressalta que Deus cria a pessoa humana em comunhão com toda a natureza criada, sendo a água um dom, um presente Dele para o homem. “O ser humano necessita de água para viver, para se lavar, para cozinhar os alimentos, etc. As pessoas devem saber respeitar a água e dar condições pra que seus semelhantes tenham acesso a ela. A água não é propriedade exclusiva de ninguém, mas deve ser um dom de Deus para todos”.

A preservação da água e de toda a natureza criada por Deus é objetivo central da Campanha da Fraternidade deste ano. A campanha promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) destaca que a “criação geme dores de parto” e pede por mais “Fraternidade e a Vida no Planeta”.

O Santo Padre ressalta primeiramente uma correta relação com o mundo buscando maior sensibilidade à presença de Deus naquilo que está ao seu redor: em todas as criaturas e, especialmente, na pessoa humana há uma certa epifania de Deus.


"O homem só será capaz de respeitar as criaturas na medida em que tiver no seu espírito um sentido pleno da vida; caso contrário, será levado a desprezar-se a si mesmo e àquilo que o circunda, a não ter respeito pelo ambiente em que vive, pela criação. Por isso, a primeira ecologia a ser defendida é a 'ecologia humana'", enfatiza Sua Santidade Bento XVI.

Padre Wagner Ferreira

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O Rosário


Na repetição das orações do Pai Nosso, das Aves Marias e do Glória ao Pai vai criando em nossa mente o filme da vida de Cristo

Outubro, o mês das Missões, é o mês em que somos convidados a refletir sobre a atualidade do Santo Rosário em nossa vida cristã. Por isso mesmo, neste mês devemos reforçar a nossa devoção mariana empreendendo a Oração do Rosário em família, em grupos de orações, nos setores pastorais, nas comunidades e nas paróquias. Essa devoção contemplativa faz-nos meditar sobre os mistérios de nossa redenção. É uma oportunidade de chegar às pessoas em todos os lugares e começar ali um grupo católico, embrião de uma futura pequena comunidade. Neste tempo em que tanto falamos de Paróquia como comunidade de comunidades, uma das formas de iniciarmos uma comunidade é através da oração. É claro que os grupos de reflexão, círculos bíblicos e outros tipos de reuniões e celebrações também formam as futuras comunidades, que farão parte da paróquia presente em todo o seu território. São oportunidades que nos ajudam a viver o trabalho pastoral. Mas a Oração do Rosário também precede as celebrações eucarísticas, acompanha-nos nas viagens, nos tempos de reflexão, andando pelos caminhos, nos momentos de alegria ou aflição, fazendo-nos próximos do Senhor que nos conduz e ilumina nossas vidas.

Na Carta Apostólica sobre o “Rosário da Virgem Maria”, o Papa João Paulo II nos ensina que: "O Rosário, de fato, ainda que caracterizado pela sua fisionomia mariana, no seu âmago é oração cristológica. Na sobriedade dos seus elementos, concentra a profundidade de toda a mensagem evangélica, da qual é quase um compêndio. Nele ecoa a oração de Maria, o seu perene Magnificat pela obra da Encarnação redentora iniciada no seu ventre virginal. Com ele, o povo cristão frequenta a escola de Maria, para deixar-se introduzir na contemplação da beleza do rosto de Cristo e na experiência da profundidade do seu amor. Mediante o Rosário, o crente alcança a graça em abundância, como se a recebesse das mesmas mãos da Mãe do Redentor" (cf. RVM, n. 1). Com isso vemos que essa oração devocional sustentou durante muito tempo a vida cristã católica de nosso povo num passado não muito distante.

João Paulo II nos incentivava a reza do Rosário cotidianamente pelo "fato de este constituir um meio validíssimo para favorecer entre os crentes aquele compromisso de contemplação do mistério cristão que ele propôs na Carta apostólica Novo millennio ineunte como verdadeira e própria pedagogia da santidade: 'Há necessidade dum cristianismo que se destaque principalmente pela ‘arte da oração'. Enquanto que na cultura contemporânea, mesmo entre tantas contradições, emerge uma nova exigência de espiritualidade, é extremamente urgente que as nossas comunidades cristãs se tornem 'autênticas escolas de oração'. O Rosário situa-se na melhor e mais garantida tradição da contemplação cristã. Desenvolvido no Ocidente, é oração tipicamente meditativa e corresponde, de certo modo, à 'oração do coração' ou 'oração de Jesus' germinada no húmus do Oriente cristão" (cf. RVM, n. 5).

O Papa disse que o Rosário é o compêndio dos Santos Evangelhos: o Rosário é um dos percursos tradicionais da oração cristã aplicada à contemplação do rosto de Cristo. Paulo VI assim o descreveu: 'Oração evangélica, centrada sobre o mistério da Encarnação redentora, o Rosário é, por isso mesmo, uma prece de orientação profundamente cristológica. Na verdade, o seu elemento mais característico – a repetição litânica do 'Alegra-te, Maria' – torna-se também ele louvor incessante a Cristo, objetivo último do anúncio do Anjo e da saudação da mãe do Baptista: 'Bendito o fruto do teu ventre' (Lc 1, 42). “Diremos mais ainda: a repetição da Ave Maria constitui a urdidura sobre a qual se desenrola a contemplação dos mistérios; aquele Jesus que cada Ave Maria relembra é o mesmo que a sucessão dos mistérios propõe, uma e outra vez, como Filho de Deus e da Virgem Santíssima" (cf. RVM, n. 18).

O Rosário é composto de quatro mistérios: gozosos, dolorosos, gloriosos e da luz. Os mistérios da luz foram acrescidos pelo Papa João Paulo II. Ensina o futuro santo que: "Passando da infância e da vida de Nazaré à vida pública de Jesus, a contemplação leva-nos aos mistérios que se podem chamar, por especial título, 'mistérios da luz'. Na verdade, todo o mistério de Cristo é luz. Ele é a 'luz do mundo' (Jo8, 12). Mas esta dimensão emerge particularmente nos anos da vida pública, quando Ele anuncia o evangelho do Reino. Querendo indicar à comunidade cristã cinco momentos significativos – mistérios luminosos – desta fase da vida de Cristo: 1o no seu Batismo no Jordão, 2o na sua auto-revelação nas bodas de Caná, 3o no seu anúncio do Reino de Deus com o convite à conversão, 4o na sua Transfiguração e, enfim, 5o na instituição da Eucaristia, expressão sacramental do mistério pascal".

O Santo Rosário "coloca-se ao serviço deste ideal, oferecendo o “segredo” para se abrir mais facilmente a um conhecimento profundo e empenhado de Cristo. Digamos que é o caminho de Maria. É o caminho do exemplo da Virgem de Nazaré, mulher de fé, de silêncio e de escuta. É, ao mesmo tempo, o caminho de uma devoção mariana animada pela certeza da relação indivisível que liga Cristo à sua Mãe Santíssima: os mistérios de Cristo são também, de certo modo, os mistérios da Mãe, mesmo quando não está diretamente envolvida, pelo fato de Ela viver d'Ele e para Ele. Na Ave Maria, apropriando-nos das palavras do Arcanjo Gabriel e de Santa Isabel, sentimo-nos levados a procurar sempre em Maria, nos seus braços e no seu coração, o 'fruto bendito do seu ventre' (cf. Lc 1, 42) “(cf. RVM 24).

Vivemos no dia a dia da correria, de uma sociedade desorientada, infelizmente, em tempos tortuosos e agitados. O mundo parece estar cansado. A Virgem Maria continua cantando em nossos corações: "Derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes" (Lc 1,52-53). Entre um mistério e outro repetimos: "Jesus, socorrei principalmente os que mais precisarem". Por isso, na cidade, ou no campo – religiosos, leigos, bispos, padres, até o Papa – todos têm uma simpatia especial pelo “Terço”, rezado por toda a Igreja, que encontra nele uma maneira prática de estar com Deus. Aqui, os grupos do “terço dos homens” se multiplicam. Agora também com o “terço das mulheres”, além dos vários grupos de espiritualidades marianas. O evento arquidiocesano “Senhora do Rosário” quis reunir em nossa catedral, para uma Oração do Terço, todos os grupos que se empenham comunitariamente em rezá-lo.

Portanto, movido pelo entusiasmo da JMJ Rio 2013, convido particularmente os jovens, que já sabem rezar o Rosário, que ensinem esta devoção aos outros jovens ou aos seus companheiros e amigos que ainda não experimentaram a riqueza desta oração mariana. Na repetição das orações do Pai Nosso, das Aves Marias e do Glória ao Pai vai criando em nossa mente o filme da vida de Cristo. Assim, rezando o terço, iremos crescer sempre na maior intimidade com a vida do Cristo Redentor.


Que Nossa Senhora do Rosário nos ajude a redescobrir a beleza e a atualidade do Santo Rosário. E peço a todos: rezem nas intenções da igreja, do santo padre, e também por mim e pela nossa Arquidiocese!

Dom Orani João Tempesta
CNBB

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Quem te ocupa mais?


Deus, portanto, nada exige de nós que não seja razoável, quando a Seu respeito e a respeito do próximo quer que nos portemos como nada sendo, nada tendo, nada pretendendo.

Quando nos falam de renunciarmos a nós mesmos, de aniquilar-nos; quando nos dizem ser esse o fundo da moral cristã, consistir nisso a adoração em espírito e verdade, tal palavra nos parece dura e até injusta: não queremos ouvi-la e repelimos quem no-lo prega da parte de Deus. Convençamo-nos, uma vez por todas, de que esse preceito nada de injusto encerra e na prática é mais suave do que pensamos. Em seguida, humilhemo-nos se nos faltar coragem para pô-lo em prática e, ao invés de condená-lo condenemos a nós mesmos.

Que nos pede o Senhor, ordenando que nos aniquilemos? Pede fazermos justiça a nós mesmos, colocarmo-nos em nosso lugar e reconhecermo-nos tais quais somos. Quando mesmo tivéssemos nascido e vivido sempre na inocência, quando jamais houvéssemos perdido a graça original, outra coisa não seríamos, por nós mesmos, senão nada; não poderíamos consider-nos de outro modo sem nos desconhecermos e injustos seríamos pretendendo que diversamente Deus ou os homens nos tratassem. Que se pode dever ao que nada é? Que pode exigir o que nada é? Se a sua própria existência é uma graça, também e com razão maior é tudo quanto tem.

Há, portanto, injustiça formal da nossa parte em recusarmos ser tratados e tratar-nos a nós mesmos como verdadeiros nadas.

Diz-se nada custar e ser justa essa confissão em relação a Deus; mas que assim não é a respeito dos homens, porquanto estes, nada sendo, como nós, não têm título algum para obrigar-nos a tal confissão e às suas consequências. A confissão nada custa em relação a Deus, se nos limitamos a fazê-la de boca; porém, quando faz-se mister procedermos de acordo com ela, deixarmos que Ele se arrogue e exerça sobre nós todos os direitos que Lhe pertencem, consentirmos em que disponha ao Seu talante de nosso coração, de todo o nosso coração, de todo o nosso ser, custa-nos infinitamente e com grande dificuldade não chamamos ser injustiça. Ele, todavia, poupa a nossa fraqueza, não usa dos Seus direitos com todo o rigor, jamais nos expõe a certas provas aniquiladoras, sem ter obtido o nosso consentimento.

Quanto aos homens, concordo não terem por si mesmos domínio algum sobre nós e que injusto é da sua parte qualquer desprezo, humilhação ou ultraje. Mas nem por isso temos direito de nos queixarmos dessa injustiça, porque no fundo não é injustiça a nós, que nada somos, a quem nada é devido, mas para com Deus, cujo mandamento violam desprezando-nos, humilhando-nos, ultrajando-nos.  É, pois, o Senhor quem deve ressentir-Se da injúria que Lhe fazem maltratando-nos e não nós, que em tudo quanto nos acontece não devemos ser sensíveis senão à injúria feita a Deus. Meu próximo despreza-me; não tem razão, porque não é mais do que eu e Deus lho proíbe. Mas não terá ele razão porque eu sou verdadeiramente digno de estima, porque em mim nada há merecedor de desprezo? Não, porque se ele arrebata meus bens, mancha a minha reputação, atenta contra a minha vida, é certamente culpado e muito culpado para com Deus; mas será também para comigo? Estarei autorizado a querer-lhe mal, a vingar-me?

Não: porque tudo quanto possuo, tudo quanto sou, não pertence propriamente a mim; que só tenho de meu o nada e a quem nada se pode tirar. Se assim encarássemos, sempre do lado de Deus e jamais do nosso, tudo que nos acontece, não seríamos tão melindrosos, tão sensíveis, tão sujeitos a nos queixarmos e irritarmos. Toda a desordem vem sempre de supormos que somos alguma coisa, de nos arrogarmos direitos que nos falecem, de em tudo começarmos sempre por nos considerarmos diretamente e não prestarmos atenção aos direitos e aos interesses de Deus, os únicos lesados no que nos concerne.

Confesso que isso é de prática muito difícil e para consegui-lo faz-se mister renunciarmos, absoluta e completamente, a nós mesmos. Mas, em suma, é justo e a razão coisa alguma pode opor.

Deus, portanto, nada exige de nós que não seja razoável, quando a Seu respeito e a respeito do próximo quer que nos portemos como nada sendo, nada tendo, nada pretendendo.

Isto como já se disse, seria justo, quando mesmo tivéssemos conservado a nossa primeira inocência. Mas, se nascemos culpados, se estamos inteiramente cobertos de pecados pessoais, se contraímos infinitas dívidas para com a justiça divina, se merecemos não sei quantas vezes a condenação eterna, não é para nós castigo demasiado brando só sermos tratados como nadas?  E não deve o pecador colocar-se infinitamente abaixo do que nada é? Se qual for a provação imposta a ele por Deus, sejam quais forem os maus tratos suportados do próximo, terá direito de se queixar? Poderá acusar de rigor excessivo a Deus ou de injustiça os homens? Não deve, antes, considerar-se muito feliz em resgatar, com alguma pena temporal, tormentos eternos? Se a religião não é uma ilusão, se é verdade o que a fé nos ensina acerca do pecado e dos suplícios que lhe estão reservados, como pode entrar no espírito de um pecador - a quem Deus se dispõe a perdoar - que não merece tudo quanto se possa suportar de males neste mundo, embora dure sua vida milhões de séculos? Sim, é injustiça soberana, é monstruosa ingratidão de quem ofendeu a Deus (e quem de nós não O ofendeu?) não aceitar de boamente, em reconhecimento, por amor, por dedicação aos interesses de Deus, tudo quanto de sofrimentos, se essas humilhações aprouver à divina bondade enviar-lhe. E que será se tais sofrimentos, se essas humilhações passageiras são, não só a compensação do inferno, mas o preço de uma felicidade eterna, o preço da posse eterna de Deus; se no céu seremos glorificados na proporção do nosso aniquilamento aqui na terra? Teremos ainda horror a nos aniquilarmos?  Pensaremos que é nos fazer mal, quando, por sermos pecadores e para emergirmos do nada, exige-se a renúncia completa do nosso eu, com a promessa de uma recompensa que sempre durará?

Acrescento que semelhante forma de aniquilamento, contra a qual a natureza tanto se insurge e clama, ao invés de tão penosa como imaginamos, é até suave, porque antes de tudo Jesus Cristo a declarou tal:Tomai sobre vós o meu jugo, disse Ele; é doce e leve. Por mais pesado que seja esse jugo, Deus o suaviza para os que o tomam de boa vontade e consentem em carregá-lo por Seu amor. O amor não nos impede de sofrer, mas faz como que amemos o sofrimento e torna-o preferível e a todos os prazeres.

A recompensa presente do aniquilamento é a paz do coração, a calma das paixões, a cessação de todas as agitações do espírito, das murmurações, das revoltas interiores.

Vejamos, em pormenores, a prova disto. Qual é o maior mal do sofrimento? Não é a própria dor, é a revolta, a sublevação interior que a acompanha. A alma aniquilada sofreria todos os males imagináveis sem perder o repouso conexo ao seu estado: é fato de experiência. Custa-nos conseguir o nosso aniquilamento, temos que fazer grandes esforços sobre nós mesmos: mas também gozamos da paz na proporção das vitórias alcançadas.

O hábito de renunciarmos a nós mesmos, de não atendermos ao nosso eu, torna-se cada dia mais fácil; admiramo-nos de que não nos faça mais sofrer, no fim de certo tempo, aquilo que nos parecia intolerável, assustava a imaginação, sublevava as paixões e punha a natureza em estado violento.

Nos desprezos, nas calúnias, humilhações, o que no-las torna tão duras de suportar é o nosso orgulho; é o nosso desejo de ser estimados, considerados, tratados com certas atenções; é o pavor que temos das zombarias e do desprezo do próximo. Eis o que nos agita e enche de indignação, o que nos torna a vida amarga e insuportável.  Trabalhemos com afinco para aniquilar-nos; não demos alimento nenhum ao orgulho, deixemos caírem todos os artifícios de estima e amor próprio, aceitemos interiormente as pequenas mortificações que se apresentarem.

Pouco a pouco chegaremos a não mais nos inquietarmos com o que se pensa e diz de nós, nem com o modo pelo qual nos tratam. Um morto nada sente; para ele não há honra nem reputação; os louvores e as injúrias lhe são indiferentes.


Fonte: Aleteia em busca da verdade

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Rezar é abrir-se a Deus



Na oração nós aprendemos a ouvir o Senhor

Ninguém se coloca sob o sol sem se queimar. Se tomar sol você vai sofrer as consequências dele. Com Deus acontece algo semelhante, ninguém se coloca na presença d'Ele sem ser beneficiado por ela. As marcas da presença do Todo-poderoso também são irreversíveis para a nossa salvação. Quando nós nos deixamos conduzir pelo Espírito Santo, Ele nos dá liberdade. Nunca o Senhor pensou em trazê-lo para perto d'Ele para tirar algo de você, muito menos para limitar a sua liberdade. Se Ele não quisesse que fôssemos livres, por que teria nos criado livres?
Nossa liberdade ficou comprometida por nossa própria culpa, porque quem peca se torna escravo do pecado. Pelos erros e pelos vícios que entram em nossa vida ficamos debilitados. O Pai nos deu Cristo para nos libertar daquilo que nos amarra. Deus nos mostra quais caminhos podemos seguir, mas a liberdade de escolher é nossa. O desejo do Senhor é libertar você de toda a angústia, de toda a opressão. O desejo d'Ele é vê-lo feliz.

Veja em Gálatas 5,1: "É para que sejamos homens livres que Cristo nos libertou. Ficai, portanto, firmes e não vos submetais outra vez ao jugo da escravidão".

Cristo amou você, morreu numa cruz por sua causa, para que você não fosse escravo do pecado. O Ressuscitado nos libertou de todo o mal, de toda armadilha do inimigo para que permaneçamos livres. Contudo, ninguém é livre na maldade. Uma vez que o Espírito Santo visitá-lo, não dê brecha para o pecado.

Quem conhece as coisas que há no homem,se não o espírito do homem que nele reside? (cf. Coríntios 2, 10-16)Assim também ninguém conhece as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus.

Ninguém pode saber o que está em seu interior se você não abrir a boca e disser. Quando você reza, Deus Pai o refaz e o Espírito Santo o cura e liberta. Rezar é ficar nu na presença de Deus, é se abrir a Ele. Quando você está rezando, coloca-se na presença do Altíssimo, se expõe e é curado. Quando você tira a roupa diante do espelho, vê o que quer e o que não quer. Na hora em que estamos rezando, caem as nossas roupas - espiritualmente falando - e, do mesmo modo, vemos aquilo que queremos e o que não queremos. Tudo que eu faço de mau volta para mim no momento da oração. As feridas que nós ignoramos, na oração não conseguimos ignorá-las, porque, nesse momento, Deus as revela para nós ao nos curar. No momento em que o Senhor me mostra quem eu sou, Ele também mostra quem Ele é. Se Ele me revela uma coisa que não está boa, é porque é preciso consertá-la.

Na oração nós aprendemos a ouvir o Senhor. Não existe ninguém que, tendo rezado, Deus não o tenha respondido. E se Ele não lhe responde diretamente, vai fazê-lo por meio de uma pessoa ou de um fato, mas Ele responde. Nós precisamos aprender a ouvi-Lo na oração para conhecermos os planos que Ele tem para nossa vida.

Eu e você precisamos, na oração, pedir ao Espírito Santo que nos faça descobrir o que está ruim ali dentro. Deus sabe o quando você foi machucado e sabe como curá-lo.

A nossa vida inteira é um processo de cura interior. Enquanto você estiver com os pés aqui nesta terra, sua vida será um processo de cura interior. Nós temos que nos apresentar diante de Deus. 

O Todo-poderoso tem um plano na sua vida, um plano de amor, um plano de realização e de felicidade para você. Se você não abre o seu coração para a oração, corre o sério risco de morrer sem conhecer o plano que Deus tinha para você.

Márcio Mendes
Missionário na Canção Nova

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A primeira: a Igreja como Família de Deus.


Nos últimos meses, mais de uma vez eu fiz referência à Parábola do Filho Pródigo, ou melhor, do Pai Misericordioso (cf. Lc 15:11-32). O filho mais novo deixa a casa do pai, desperdiça tudo e decide voltar porque percebe que cometeu um erro, mas já não é considerado digno de ser filho e pensa em poder ser recebido de volta como servo. Mas o pai corre ao seu encontro e o abraça, lhe restitui de volta sua dignidade de filho e faz festa. Esta parábola, como outras no Evangelho, mostra bem o desígnio de Deus para a humanidade.

Qual é este plano de Deus? É fazer de todos nós uma única família de filhos, em que cada um se sinta próximo e amado por Ele, como na parábola do Evangelho, sinta o calor de ser família de Deus. Neste grande projeto, encontra sua raiz na Igreja, que não é uma organização fundada por pessoas, mas – como nos recordou tantas vezes o Papa Bento XVI – é obra de Deus, nasceu exatamente deste plano de amor que se concretiza progressivamente na história. A Igreja nasce do desejo de Deus de chamar todo homem à comunhão com Ele, à Sua amizade e a participar como filhos de sua vida divina. A própria palavra “Igreja”, do grego ekklesia, significa “convocação”: Deus nos chama, nos impulsiona a sair do individualismo, da tendência de nos fechar em nós mesmos e nos chama a fazer parte de sua família. E este chamado tem origem na própria criação. Deus nos criou para que vivêssemos em uma relação de profunda amizade com Ele e até mesmo quando o pecado quebrou esta relação com Deus, com os outros e com a criação, Deus não nos abandonou. Toda a história da salvação é a história de Deus que busca o homem, oferece-lhe seu amor, o acolhe. Ele chamou Abraão para ser o pai de uma multidão, escolheu o povo de Israel para firmar uma aliança que abraçasse todas as nações e enviou, na plenitude dos tempos, seu Filho, para que seu plano de amor e salvação fosse realizado em uma nova e eterna aliança com toda a humanidade. Quando lemos os Evangelhos, vemos que Jesus reúne em torno de si uma pequena comunidade que acolhe a sua palavra, segue-o, compartilha sua jornada, se torna Sua família e com esta comunidade Ele prepara e constrói Sua Igreja.

Onde nasce a Igreja, então? Nasce do supremo ato de amor na Cruz, do lado trespassado de Jesus, de onde jorram sangue e água, símbolo dos sacramentos da Eucaristia e do Batismo. Na família de Deus, na Igreja, a seiva vital é o amor de Deus que se constitui em amá-Lo e amar os outros, todos, sem distinção e medida. A Igreja é uma família em que se ama e é amado.

Quando se manifesta a Igreja? Celebramos esse momento há dois domingos. Se manifesta quando o dom do Espírito Santo enche o coração dos Apóstolos e os impele a sair e começar o caminho para anunciar o Evangelho, espalhar o amor de Deus.

Mesmo hoje em dia, alguém diz: “Cristo sim, a Igreja não”. Como aqueles que dizem “eu acredito em Deus, mas não nos sacerdotes”. Mas é a Igreja que nos leva a Cristo, que nos leva a Deus, a Igreja é a grande família dos filhos de Deus. Claro que há também aspectos humanos, naqueles que a compõem, pastores e fiéis, há defeitos, imperfeições, pecados e o Papa também os tem e são muitos, mas o belo é que, quando nos damos conta de que somos pecadores, encontramos a misericórdia de Deus, que sempre perdoa. Não se esqueça: Deus sempre perdoa e nos recebe em seu amor de perdão e misericórdia. Alguns dizem que o pecado é uma ofensa a Deus, mas também uma oportunidade de humilhação para perceber que não há nada mais belo: a misericórdia de Deus. Pensemos nisso.

Nos perguntemos hoje: quanto amo a Igreja? Rezo por ela? Eu me sinto parte da família da Igreja? O que faço para que seja uma comunidade onde todos se sintam acolhidos e compreendidos, sintam a misericórdia e o amor de Deus que renova a vida? A fé é um dom e um ato que nos afeta pessoalmente, mas Deus nos chama a viver a nossa fé juntos, como família, como Igreja.



Peçamos ao Senhor, de maneira especial neste Ano da Fé, que as nossas comunidades, toda a Igreja, sejam cada vez mais verdadeiras famílias que vivem e levam o calor de Deus.

Catequese - Papa Francisco

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Por que a Igreja Católica cultua a imagem de santos?


A Igreja Católica nunca afirmou que devemos “adorar” as imagens

Em primeiro lugar, é preciso entender que Deus não nos proíbe de fazer imagens, mas sim imagens “de ídolos”, ou seja, de deuses falsos.

Já no Antigo Testamento, o próprio Deus prescreveu a confecção de imagens como querubins, serpentes de bronze, leões do palácio de Salomão etc. A Bíblia defende o uso de imagens como é possível verificar em muitas passagens: Ex 25,17-22; 37,7-9; 41,18; Nm 21,8-9; 1Rs 6,23-29.32; 7,26-29.36; 8,7; 1Cr 28,18-19; 2Cr 3,7.10-14; 5,8; 1Sm 4,4; 2Sm 6,2; Sb 16,5-8; Ez 41,17-21; Hb 9,5 e outras mais.

Os profetas condenavam a confecção de imagens “de ídolos”: “Os que modelam ídolos nada são, as suas obras preciosas não lhes trazem nenhum proveito. Quem fabrica um deus e funde um ídolo que de nada lhe pode valer?” (Isaías 44,9-17).

O que é um ídolo? É aquilo que:

1 - substitui o único e verdadeiro Deus;

2 - são-lhes atribuídos poderes exclusivamente divinos, e

3 - são-lhe oferecidos sacrifícios devidos ao verdadeiro Deus. É o que os judeus antigos, no deserto, fizeram com o bezerro de ouro (cf. Ex 32).

Não é o que os católicos fazem. A Igreja Católica nunca afirmou que devemos “adorar” as imagens dos santos; mas venerá-las, o que é muito diferente.

A imagem é um objeto que apenas lembra a pessoa ali representada; o ídolo, por outro lado, “é o ser em si mesmo”. A quebra de uma imagem não destrói o ser que representa; já a destruição de um ídolo implica a destruição da falsa divindade.
  
Para Deus, e somente para Ele a Igreja presta um culto de adoração (“latria”), no qual reconhecemos Deus como Todo-Poderoso e Senhor do universo. Aos santos e anjos, a Igreja presta um culto de veneração (“dulia”), homenagem.

A Nossa Senhora, por ser a Mãe de Deus, a Igreja presta um culto de “hiper-dulia”, que não é adoração, mas hiper-veneração. A São José “proto-dulia”, primeira veneração.

A palavra “dulia” vem do grego “doulos”, que significa "servidor". Dulia, em português, quer dizer reverência, veneração. Latria é adoração; vem do grego “latreia”, que significa serviço ou culto prestado a um soberano senhor. Em outras palavras, significa adoração. Então, não há como confundir o culto prestado a Deus com o culto prestado aos santos.

Rogando aos santos não os olhamos nem os consideramos senão nossos intercessores para com Jesus Cristo, que é o único Medianeiro (cf. 1Tm 2,4) que nos remiu com Seu Sangue e por quem podemos alcançar a salvação. A mediação e intercessão dos santos não substituem a única e essencial mediação de Cristo, o único Sacerdote, mas é uma mediação “por meio de” Cristo, não paralela nem substitutiva. Sem a mediação única de Cristo nenhuma outra tem poder.

Significado da imagem de um santo:

A imagem de um santo tem um significado profundo. Quando se olha para ela, a imagem nos lembra que a pessoa, ali representada, é santa, viveu conforme a vontade de Deus. Então, é um “modelo de vida” para todos.

A imagem lembra também que aquela pessoa está no céu, isto é, na comunhão plena com o Senhor; ela goza da chamada “visão beatífica de Deus” e intercede por nós sem cessar, como reza uma das orações eucarísticas da Missa.

São Jerônimo dizia: “Se, aqui na Terra, os santos, em vida, rezavam e trabalhavam tanto por nós, quanto mais não o farão no céu, diante de Deus. Santa Teresinha do Menino Jesus dizia que “ia passar o céu na terra”, isto é, intercedendo pelas pessoas.

O Catecismo da Igreja nos ensina o seguinte no §956: “Pelo fato de os habitantes do Céu estarem unidos mais intimamente com Cristo, consolidam com mais firmeza na santidade toda a Igreja. Eles não deixam de interceder por nós junto ao Pai, apresentando os méritos que alcançaram na Terra pelo único mediador de Deus e dos homens, Cristo Jesus. Por seguinte, pela fraterna solicitude deles, a nossa fraqueza recebe o mais valioso auxílio” (LG 49).

A imagem de um santo nos lembra ainda que ele é santo pelo poder e graça de Deus; então, a veneração da imagem dá glória ao Senhor, mais que ao santo. São Bernardo, doutor da Igreja, sempre que passava por uma imagem de Nossa Senhora dizia: “Salve, Maria!”. Um dia, depois de dizer essas palavras, Nossa Senhora lhe disse: “Salve, Bernardo!”

Podemos tocar e beijar as imagens como um gesto de amor, reverência e veneração, não de adoração. Não fazemos isso com a imagem de um ente querido falecido? Podemos admirar as imagens – por isso elas devem ser bem feitas, em clima de oração – e rezar diante delas, pedindo ao santo, ali representado, que interceda diante de Deus. É Ele quem faz o milagre, mas o pedido vem dos santos, como nas Bodas de Caná, onde Jesus fez a transformação de 600 litros de água em vinho, “porque Sua Mãe intercedeu”. Ainda não era a hora dos seus milagres!

A intercessão dos santos:

A intercessão dos santos é algo maravilhoso. Quando nós precisamos de um favor de uma pessoa importante, mas não conseguimos chegar até ela, então, procuramos um mediador, um intercessor, que seja amigo dessa pessoa, para fazer a ela o nosso pedido. E a pessoa importante a atende por ter intimidade com nosso intercessor. Ora, fazemos o mesmo com Deus. Não temos intimidade com Ele como os santos que já estão na Sua glória; nossos pecados limitam nossa intimidade com o Pai; então, os santos nos ajudam. Mas, como eles podem ouvir todos os pedidos ao mesmo tempo sem que tenham a onisciência e a onipresença de Deus? É simples. Na vida eterna, já não há mais as realidades terrenas do tempo e espaço. A comunhão perfeita com Deus dá aos santos o conhecimento de nossas orações e pedidos e, na plenitude de Deus, e por meio d'Ele não há a dificuldade de atender a todos ao mesmo tempo, pois já não existe mais esse fator limitador. No Céu, a realidade é outra.

Alguns perguntam: mas os mortos não estão todos dormindo, aguardando a ressurreição? Não. Jesus contou o caso do pobre Lázaro, o qual já estava no seio de Abraão, vivo e salvo, e o rico que sofria as penas eternas. A alma não dorme. No livro de Macabeus (2Mac 15, 11-15) temos a narrativa de Judas Macabeus, que teve a visão do sacerdote Onias, já falecido, orando pelo povo judeu.

Por tudo isso, as imagens precisam ser bem feitas, mais parecidas possíveis com o santo. Não devemos fazer imagens mal feitas ou mal pintadas. Quando não há uma foto ou uma pintura de santos antigos, então é licito que artistas sugiram uma imagem que a Igreja abençoe.

Quando uma imagem que foi benzida se quebra, e não é possível restaurá-la, então deve ser enterrada, destruída ou colocada em um lugar onde não haja profanação dela. Se for de material combustível, pode ser queimada.

O Concílio Ecumênico de Nicéia, no ano 789, que aprovou o uso de imagens, disse:

“Na trilha da doutrina divinamente inspirada de nossos santos padres e da tradição da Igreja Católica, que sabemos ser a tradição do Espírito Santo que habita nela, definimos com toda certeza e acerto que as veneráveis e santas imagens, bem como as representações da cruz preciosa e vivificante, sejam elas pintadas, de mosaico ou de qualquer outra matéria apropriada, devem ser colocadas nas santas igrejas de Deus, sobre os utensílios e as vestes sacras, sobre paredes e em quadros, nas casas e nos caminhos, tanto a imagem de Nosso Senhor, Deus e Salvador, Jesus Cristo, como a de Nossa Senhora, a puríssima e santíssima mãe de Deus, dos santos anjos, de todos os santos e dos justos.”

São João Damasceno, doutor da Igreja, dizia: "A beleza e a cor das imagens estimulam minha oração. É uma festa para os meus olhos, tanto quanto o espetáculo do campo estimula meu coração a dar glória a Deus."

Felipe Aquino