quinta-feira, 21 de julho de 2011

EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS DE SANTO INÁCIO DE LOYOLA




ORIENTAÇÕES GERAIS PARA A PRIMEIRA SEMANA

PRINCÍPIO E FUNDAMENTO DE TODOS OS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS
Princípio e Fundamento:
O homem é criado para louvar, prestar reverência e servir a Deus nosso Senhor e, mediante isto, salvar a sua alma; e as outras coisas sobre a face da terra são criadas para o homem, para que o ajudem a conseguir o fim para que é criado. Donde se segue que o homem tanto há de usar delas quanto o ajudam para o seu fim, e tanto deve deixar-se delas, quanto disso o impedem.
Pelo que, é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é concedido à liberdade do nosso livre arbítrio, e não lhe está proibido; de tal maneira que, da nossa parte, não queiramos mais saúde que doença, riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que vida curta, e conseqüentemente em tudo o mais; mas somente desejemos e escolhamos o que mais nos conduz para o fim para que somos criados.

PRIMEIRAS NOÇÕES DE CONFRONTO COM O PRINCÍPIO E FUNDAMENTO
Exame Particular e quotidiano.
Compreende três tempos e examinar-se duas vezes:
Primeiro tempo: Pela manhã, logo ao levantar, deve propor guardar-se, com diligência, daquele pecado particular ou defeito que se quer corrigir e emendar.
Segundo tempo: Depois da refeição do meio-dia, pedir a Deus nosso Senhor o que se quer, a saber, graça para se recordar de quantas vezes caiu naquele pecado particular ou defeito e para se emendar no futuro. Em seguida, faça o primeiro exame, pedindo conta à sua alma daquele ponto particular proposto de que se quer corrigir e emendar, percorrendo hora por hora ou tempo por tempo, começando desde a hora em que se levantou até à hora e momento do presente exame; e faça, na primeira linha do g = tantos pontos quantas forem às vezes que tenha incorrido naquele pecado particular ou defeito; e depois, proponha, de novo, emendar-se até ao segundo exame que fará.
Terceiro tempo: Depois da refeição da noite, fará o segundo exame, também de hora em hora, começando desde o primeiro exame até ao segundo, e fará, na segunda linha do mesmo g= tantos pontos quantas as vezes que tenha incorrido naquele pecado particular ou defeito.
Seguem-se quatro adições para mais depressa tirar aquele pecado ou defeito particular:
Primeira adição - Cada vez que a pessoa cair naquele pecado ou defeito particular, ponha a mão no peito, doendo-se de ter caído; o que se pode fazer mesmo diante de muitas pessoas, sem que notem o que faz.
Segunda adição - Como a primeira linha do g= significa o primeiro exame e a segunda linha o segundo, veja, à noite, se há emenda, da primeira linha para a segunda, a saber: do primeiro exame para o segundo.
Terceira adição - Conferir o segundo dia com o primeiro, a saber: os dois exames do dia presente com os outros dois exames do dia passado, e verificar se, de um dia para o outro, se emendou.
Quarta adição - Conferir uma semana com a outra, e verificar se se emendou, na semana presente, em comparação com a semana passada.
Nota - Note-se que o primeiro g= grande que se segue significa o domingo; o segundo menor, a segunda-feira; o terceiro, a terça-feira; e assim sucessivamente.
G
g
g
g
g
g
g

Exame Geral de Consciência para se purificar
e para melhor se confessar:

a) Elementos de discernimento
Pressuponho haver em mim três pensamentos, a saber: um que é propriamente meu, que sai da minha pura liberdade e querer; e outros dois que vêm de fora: um que vem do bom espírito e o outro do mau.
PENSAMENTOS. Há duas maneiras de merecer no mau pensamento que vem de fora.
Primeira, vem, por exemplo, um pensamento de cometer um pecado mortal. Resisto-lhe prontamente, e fica vencido.
A Segunda maneira de merecer é quando me vem aquele mesmo mau pensamento e eu lhe resisto, e torna-me a vir, uma e outra vez, e eu resisto sempre, até que o pensamento se vai vencido. Esta segunda maneira é de mais merecimento que a primeira.
Peca-se venialmente, quando vem o mesmo pensamento de pecar mortalmente, e a pessoa lhe dá atenção, demorando-se um pouco nele, ou recebendo alguma deleitação sensual, ou havendo alguma negligência em rejeitar o tal pensamento.
Há duas maneiras de pecar mortalmente:
A primeira é quando se dá consentimento ao mau pensamento, para o pôr logo em prática conforme consentiu, ou para o executar se pudesse.
A segunda maneira de pecar mortalmente é quando se põe em ato aquele pecado; e é maior por três razões: a primeira, pelo maior espaço de tempo; a segunda, pela maior intensidade; a terceira, pelo maior dano das duas pessoas.
PALAVRAS. Não jurar, nem pelo Criador nem pela criatura, a não ser com verdade, necessidade e reverência. Necessidade entendo, não quando se afirma com juramento qualquer verdade, mas quando é de alguma importância para o proveito da alma ou do corpo ou de bens temporais. Reverência entendo, quando ao pronunciar o nome do seu Criador e Senhor, com consideração, se lhe tributa a honra e reverência devidas.
É de advertir que, ainda que no juramento em vão, pecamos mais jurando pelo Criador que pela criatura, é mais difícil jurar devidamente, com verdade, necessidade e reverência, pela criatura que pelo Criador, pelas razões seguintes:
Primeira: Quando queremos jurar por alguma criatura, o fato de querer nomear a criatura não nos faz estar tão atentos nem advertidos para dizer a verdade ou para afirmá-la com necessidade, como ao querermos nomear o Senhor e Criador de todas as coisas.
Segunda: É que, ao jurar pela criatura, não é tão fácil prestar reverência e acatamento ao Criador, como quando se jura pelo mesmo Criador e Senhor e se profere o seu nome; porque o fato de querer nomear a Deus nosso Senhor, traz consigo mais acatamento e reverência que o querer nomear uma coisa criada. Portanto, concede-se mais aos perfeitos que aos imperfeitos jurar pela criatura; porque os perfeitos, pela assídua contemplação e iluminação do entendimento, consideram, meditam e contemplam mais estar Deus nosso Senhor em cada criatura, segundo a sua própria essência, presença e potência; e, assim, ao jurarem pela criatura, estão mais aptos e dispostos para prestar acatamento e reverência a seu Criador e Senhor do que os imperfeitos.
Terceira: É que na freqüência do jurar pela criatura, se há de temer mais a idolatria nos imperfeitos que nos perfeitos.
Não dizer palavra ociosa - Por palavra ociosa entendo a que não me aproveita a mim nem a outrem, nem se ordena a tal intenção. De sorte que falar de tudo o que é proveitoso ou com intenção de aproveitar à alma própria ou alheia, ao corpo ou a bens temporais, nunca é ocioso; nem o falar alguém de coisas que estão fora do seu estado, como se um religioso falasse de guerras e comércio. Mas, em tudo o que se disse, há mérito quando as palavras se ordenam a bom fim, e pecado quando se dirigem a mau fim ou se fala inutilmente.
Não dizer palavras para difamar ou murmurar, porque se descubro um pecado mortal que não seja público, peco mortalmente; e, se um pecado venial, venialmente; e, se um defeito, mostro o meu próprio defeito. Mas sendo reta a intenção, de duas maneiras se pode falar do pecado ou falta de outrem.
Primeira, quando o pecado é público, como, por exemplo, de uma meretriz pública, de uma sentença dada em juízo, ou de um erro público que infecciona as almas com quem conversa.
Segunda, Quando o pecado oculto se descobre a alguma pessoa para que ajude a levantar a que está em pecado; tendo, contudo, algumas conjecturas ou razões prováveis de que a poderá ajudar.
OBRAS. Tomando por objeto de exame os dez mandamentos e os preceitos da Igreja e as disposições dos Superiores, tudo o que se põe em prática contra alguma destas três partes, conforme a sua maior ou menor importância, será maior ou menor pecado. Entendo por disposições dos Superiores, por exemplo, bulas de cruzadas e outras indulgências, como as que se concedem em ordem a obter a paz, confessando-se e tomando o Santíssimo Sacramento; porque não pouco se peca então, ao ser causa de outros agirem, ou ao agir nós contra tão piedosas exortações e disposições de nossos superiores.

b) Método MODO DE FAZER O EXAME GERAL. CONSTA DE CINCO PONTOS:

O Primeiro ponto é dar graças a Deus nosso Senhor pelos benefícios recebidos.
Segundo, pedir graça para conhecer os pecados, e libertar-se deles.
Terceiro, pedir conta à alma, desde a hora em que se levantou até ao exame presente, hora por hora ou período por período, primeiro, dos pensamentos, depois das palavras, e depois das obras, pela mesma ordem que se disse no exame particular
Quarto, pedir perdão, a Deus nosso Senhor, das faltas.
Quinto, propor emenda, com sua graça.
Pai Nosso.
Confissão Geral com a Comunhão
Na confissão geral, para quem voluntariamente a quiser fazer, entre outros muitos proveitos, se acharão três, fazendo-a aqui.
Primeiro - Embora quem se confessa cada ano não esteja obrigado a fazer confissão geral, fazendo-a, terá maior proveito e mérito, pela maior dor atual de todos os pecados e faltas deliberadas de toda a sua vida.
Segundo - Como nos exercícios espirituais se conhecem mais interiormente os pecados e a malícia deles que no tempo em que se não dava assim às coisas interiores; alcançando agora mais conhecimento e dor deles, terá maior proveito e mérito do que antes teria.
Terceiro - É que, conseqüentemente, estando mais bem confessado e disposto, se acha mais apto e mais preparado para receber o Santíssimo Sacramento; cuja recepção ajuda não somente a não cair em pecado, mas ainda a conservar-se em aumento de graça.
Esta confissão geral se fará melhor imediatamente depois dos exercícios da primeira semana.



“CONSIDERAÇÃO E CONTEMPLAÇÃO DO PECADO”

O PRIMEIRO EXERCÍCIO
É MEDITAÇÃO COM AS TRÊS POTÊNCIAS
SOBRE O PRIMEIRO, SEGUNDO
E TERCEIRO PECADO.
COMPREENDE, DEPOIS DE UMA ORAÇÃO
PREPARATÓRIA E DOIS PREÂMBULOS, TRÊS
PONTOS PRINCIPAIS E UM COLÓQUIO.

A Oração preparatória é pedir graça a Deus nosso Senhor para que todas as minhas intenções, ações e operações sejam puramente ordenadas para serviço e louvor de sua divina majestade.
O Primeiro preâmbulo é composição, vendo o lugar. Aqui é de notar que, na contemplação ou meditação visível, assim como contemplar a Cristo nosso Senhor, o qual é visível, a composição será ver, com a vista da imaginação, o lugar material onde se acha aquilo que quero contemplar. Digo o lugar material, assim como um templo ou monte onde se acha Jesus Cristo ou Nossa Senhora, conforme o que quero contemplar. Na invisível, como é aqui a dos pecados, a composição será ver, com a vista imaginativa e considerar estar a minha alma encarcerada neste corpo corruptível e todo o composto neste vale, como desterrado, entre brutos animais. Digo todo o composto de alma e corpo.
O Segundo preâmbulo é pedir a Deus nosso Senhor o que quero e desejo. O pedido deve ser conforme a matéria proposta, a saber, se a contemplação é de ressurreição, pedir gozo com Cristo gozoso; se for de Paixão, pedir pena, lágrimas e tormento com Cristo atormentado. Aqui será pedir vergonha e confusão de mim mesmo, vendo quantos foram condenados por um só pecado mortal, e quantas vezes eu mereceria ser condenado para sempre por tantos pecados meus.
Nota. Antes de todas as contemplações ou meditações, devem-se fazer sempre a oração preparatória, sem se mudar, e os dois preâmbulos já ditos, mudando-os, algumas vezes, segundo a matéria proposta.
O Primeiro ponto será exercitar a memória sobre o primeiro pecado, que foi o dos anjos, e logo, sobre o mesmo, o entendimento discorrendo, depois, a vontade, querendo recordar e entender tudo isto para mais me envergonhar e confundir; trazendo em comparação de um pecado dos anjos, tantos pecados meus; e como eles, por um pecado, foram para o inferno, sendo tantas as vezes que eu o mereci por tantos mais. Digo trazer à memória o pecado dos anjos: como sendo eles criados em graça, não querendo servir-se da sua liberdade para prestar reverência e obediência a seu Criador e Senhor, caindo em soberba, passaram da graça à perversidade e foram lançados do céu ao inferno; e assim, depois, discorrer mais em particular com o entendimento e, depois, mover mais os afetos com a vontade.
Segundo ponto, fazer outro tanto, a saber, exercitar as três potências sobre o pecado de Adão e Eva; trazendo à memória como, pelo tal pecado, fizeram tanto tempo penitência, e quanta corrupção veio ao gênero humano, indo tanta gente para o inferno. Digo trazer à memória o segundo pecado, o de nossos primeiros pais: como, depois que Adão foi criado no campo damasceno e posto no paraíso terreal, e que Eva foi criada da sua costela, sendo-lhes proibido que comessem da árvore da ciência, eles comeram e por isso pecaram; e como, depois, vestidos de túnicas de peles e expulsos do paraíso, viveram, sem a justiça original que tinham perdido, toda a sua vida em muitos trabalhos e muita penitência; e, depois, discorrer com o entendimento mais em particular, usando também da vontade como está dito.
Terceiro ponto, do mesmo modo, fazer outro tanto sobre o terceiro pecado, o pecado particular de cada um que por um pecado mortal tenha ido para o inferno, e o de muitos outros, sem conta, que para lá foram por menos pecados do que eu. Digo fazer outro tanto sobre o terceiro pecado particular, trazendo à memória a gravidade e malícia do pecado contra o seu Criador e Senhor, discorrer com o entendimento como, em pecar e agir contra a bondade infinita, tal pessoa foi justamente condenada para sempre; e acabar com a vontade, como está dito.
Colóquio - Imaginando a Cristo nosso Senhor diante de mim e pregado na cruz, fazer um colóquio: como de Criador veio a fazer-se homem, e de vida eterna a morte temporal, e assim a morrer por meus pecados. E, assim em colóquio, interrogar-me a mim mesmo: o que tenho feito por Cristo, o que faço por Cristo, o que devo fazer por Cristo; e vendo-o a Ele em tal estado e assim pendente na cruz, discorrer pelo que se me oferecer.
O colóquio faz-se, propriamente, falando, assim como um amigo fala a outro, ou um servo a seu senhor: ora pedindo alguma graça, ora confessando-se culpado por algum mal feito, ora comunicando as suas coisas e querendo conselho nelas. E dizer um Pai Nosso.


O SEGUNDO EXERCÍCIO
É MEDITAÇÃO DOS PECADOS
E COMPREENDE, DEPOIS DA ORAÇÃO PREPARATÓRIA
E DOIS PREÂMBULOS, CINCO PONTOS E UM COLÓQUIO

A Oração preparatória seja a mesma
O Primeiro preâmbulo será a mesma composição
O Segundo preâmbulo é pedir o que quero: será aqui pedir acrescida e intensa dor e lágrimas por meus pecados.
O 1ºponto é o processo dos pecados, a saber, trazer à memória todos os pecados da vida, considerando ano por ano, ou período por período; para o que aproveitam três coisas: – a primeira, considerar o lugar e a casa onde habitei; a segunda, a convivência que tive com outros; a terceira, o ofício em que vivi.
O 2ºponto é ponderar os pecados, considerando a fealdade (feiúra) e a malícia que cada pecado mortal cometido tem em si, mesmo que não fosse proibido.
3º ponto, considerar quem sou eu, diminuindo-me por exemplos: Primeiro, quanto sou eu em comparação com todos os homens; Segundo, que coisa são os homens, em comparação com todos os anjos e santos do paraíso; Terceiro, considerar que coisa é tudo o criado, em comparação com Deus: pois eu só, que posso ser? Quarto, considerar toda a minha corrupção e fealdade corporal; Quinto, considerar-me como uma chaga e um abcesso, donde saíram tantos pecados, tantas maldades e peçonha tão repugnante.
4º ponto, considerar quem é Deus, contra quem pequei, segundo os seus atributos, comparando-os aos seus contrários em mim: a sua sapiência à minha ignorância, a sua onipotência à minha fraqueza, a sua justiça à minha iniqüidade, a sua bondade à minha malícia.
5º ponto, exclamação admirativa, com acrescido afeto, discorrendo por todas as criaturas, como me têm deixado com vida e conservado nela; os anjos, que sendo a espada da justiça divina, como me têm suportado, guardado e rogado por mim; os santos, como têm estado a interceder e rogar por mim; e os céus, sol, lua, estrelas e elementos, frutos, aves, peixes e animais; e a terra, como não se abriu para me tragar, criando novos infernos para sempre penar neles.
Colóquio. Acabar com um colóquio sobre a misericórdia, buscando razões e dando graças a Deus nosso Senhor porque me deu vida até agora, propondo emenda, com a sua graça, para o futuro. Pai Nosso.


O TERCEIRO EXERCÍCIO
É A REPETIÇÃO
DO PRIMEIRO E SEGUNDO,
FAZENDO TRÊS COLÓQUIOS

Depois da oração preparatória e dois preâmbulos, será repetir o primeiro e segundo exercício, notando e fazendo pausa nos pontos em que tenha sentido maior consolação ou desolação ou maior sentimento espiritual. Depois do que, farei três colóquios, da maneira que se segue:
Primeiro colóquio a Nossa Senhora, para que me alcance graça de seu Filho e Senhor para três coisas: a primeira, para que eu sinta interno conhecimento dos meus pecados e aborrecimento deles; a segunda, para que sinta a desordem das minhas operações, para que, aborrecendo-a, me emende e me ordene; a terceira, pedir conhecimento do mundo, para que, aborrecendo-o, aparte de mim as coisas mundanas e vãs. Depois disto, uma Ave Maria.

Segundo colóquio, outro tanto ao Filho, para que mo alcance do Pai. Depois disto, Alma de Cristo.

Terceiro colóquio, outro tanto ao Pai, para que o mesmo Senhor eterno mo conceda. Depois disto, um Pai Nosso.

O QUARTO EXERCÍCIO
FAZ-SE RESUMINDO
ESTE MESMO TERCEIRO

Disse “resumindo”, para que o entendimento, sem perder o rumo, raciocine assiduamente pela lembrança das coisas contempladas nos exercícios passados; e fazendo os mesmos três colóquios.

O QUINTO EXERCÍCIO
É A MEDITAÇÃO DO INFERNO.
COMPREENDE,
DEPOIS DA ORAÇÃO PREPARATÓRIA
E DOIS PREÂMBULOS,
CINCO PONTOS E UM COLÓQUIO

A oração preparatória seja a acostumada.
1º preâmbulo, a composição, é aqui ver, com a vista da imaginação, o comprimento, largura e profundidade do inferno.
2º preâmbulo, pedir o que quero: será aqui pedir interno sentimento da pena que padecem os condenados, para que, se do amor do Senhor eterno me esquecer, por minhas faltas, ao menos o temor das penas me ajude a não cair em pecado.
Primeiro ponto será ver, com a vista da imaginação, os grandes fogos e, as almas, como que em corpos incandescentes;
Segundo ponto, ouvir, com os ouvidos, prantos, alaridos, gritos, blasfêmias contra Cristo nosso Senhor e contra todos os seus Santos;
Terceiro ponto, cheirar, com o olfato, fumo, enxofre, sentina e coisas em putrefação;
Quarto ponto, gostar, com o gosto, coisas amargas, assim como lágrimas, tristeza e o verme da consciência;
Quinto ponto, tocar, com o tato, a saber: como os fogos tocam e abrasam as almas.
Fazendo um colóquio a Cristo nosso Senhor, trazer à memória as almas que estão no inferno; umas porque não acreditaram na sua vinda; outras, acreditando, não agiram segundo os seus mandamentos. Fazer três grupos: o primeiro, antes da vinda de Cristo; o segundo, durante a sua vida; o terceiro, depois da sua vida neste mundo.
Depois disto, dar-lhe graças, porque não me deixou cair em nenhum destes grupos, pondo fim a minha vida. E, assim, como até agora tem tido sempre de mim tanta piedade e misericórdia. Acabar com um Pai Nosso.

INDICAÇÕES TÉCNICAS

a. Horários para oração diária
Nota. O primeiro exercício se fará, à meia-noite; o segundo, logo ao levantar-se, pela manhã; o terceiro, antes ou depois da missa, resumidamente, que seja antes do almoço; o quarto, à hora de Vésperas (ao cair da tarde); o quinto, uma hora antes do jantar.
Esta distribuição de horas, pouco mais ou menos, sempre a entendo em todas as quatro semanas, conforme a idade, disposição e temperamento ajudem a pessoa que se exercita para fazer os cinco exercícios ou menos.
b. Ambientação da oração
Adições
para melhor fazer os exercícios
e para melhor achar o que deseja
A Primeira adição é: depois de deitado, antes de adormecer, pensar, por espaço de uma Ave Maria, a que hora tenho de me levantar e para quê, resumindo o exercício que tenho de fazer.
Segunda, quando despertar, não dando lugar a outros pensamentos, advertir logo no que vou contemplar no primeiro exercício da meia noite, excitando-me a confusão de tantos pecados meus, propondo exemplos: como se um cavaleiro se achasse diante de seu rei e de toda a sua corte, envergonhado e confundido de muito ter ofendido aquele de quem antes recebeu muitos dons e muitas mercês. E assim mesmo, no segundo exercício, reconhecer-me um grande pecador e que vou, algemado, isto é, preso com cadeias, comparecer diante do sumo e eterno Juiz, lembrando por exemplo, como os encarcerados e algemados, e já merecedores de morte, comparecem ante seu juiz temporal. E, com estes pensamentos, vestir-me; ou com outros, conforme a matéria proposta.
Terceira, a um passo ou dois do lugar onde tenho de meditar ou contemplar, pôr-me de pé, por espaço de um Pai-Nosso, levantado o espírito ao alto, considerando como Deus nosso Senhor me olha, etc; e fazer uma reverência ou uma genuflexão.
Quarta, entrar na contemplação, ora de joelhos, ora prostrado em terra, ora deitado de rosto para cima, ora sentado, ora de pé, andando sempre a buscar o que quero.
Advertiremos em duas coisas:
– A primeira é que se acho o que quero, de joelhos, não passarei adiante, e se prostrado, do mesmo modo, etc.
– A segunda, que no ponto em que achar o que quero, aí repousarei, sem ter ânsia de passar adiante, até que me satisfaça.
Quinta, depois de acabado o exercício, por espaço de um quarto de hora, ou sentado ou passeando, observarei como me correram as coisas na contemplação ou meditação. E, se mal, examinarei a causa donde procede, e uma vez descoberta, arrepender-me-ei, para me emendar daí em diante. E, se bem, darei graças a Deus nosso Senhor e farei, outra vez, da mesma maneira.
Sexta, não querer pensar em coisas de prazer ou alegria, como de glória, ressurreição, etc; porque, para sentir pena, dor e lágrimas pelos nossos pecados, o impede qualquer consideração de gozo e alegria; mas ter antes em mente o querer sentir dor e pena, trazendo mais na memória a morte e o juízo.
Sétima, privar-me de toda a claridade, para o mesmo fim, fechando janelas e portas, o tempo que estiver no quarto, a não ser para rezar, ler e comer.
Oitava, não rir nem dizer coisa que provoque o riso.
Nona, refrear a vista, exceto ao receber ou despedir a pessoa com quem falar.
Décima adição é sobre a penitência, a qual se divide em interna e externa. A interna é doer-se de seus pecados, com firme propósito de não cometer esses nem quaisquer outros. A externa, ou fruto da primeira, é castigo dos pecados cometidos. E, pratica-se, principalmente, de três maneiras.
A primeira maneira é sobre o comer, a saber: quando tiramos o supérfluo, não é penitência, mas temperança; penitência é quando tiramos do conveniente. E, quanto mais e mais, maior e melhor, contando que não se arruíne a pessoa, nem se siga enfermidade notável.
A segunda maneira é sobre o modo de dormir. E também não é penitência tirar o supérfluo de coisas delicadas ou moles. Mas é penitência quando no modo de dormir se tira do conveniente; e quanto mais e mais, melhor, contanto que não se arruíne a pessoa, nem se siga enfermidade notável, nem muito menos se tire do sono conveniente, a não ser que, por ventura, tenha hábito vicioso de dormir demasiado, para chegar à justa medida.
A terceira maneira é castigar a carne, a saber, dando-lhe dor sensível, a qual se dá, trazendo cilícios ou cordas ou barras de ferro sobre a carne, flagelando-se ou ferindo-se e outras formas de aspereza.
Nota. O que parece mais prático e mais seguro na penitência é que a dor seja sensível na carne, mas que não penetre nos ossos; de maneira que cause dor e não enfermidade. Pelo que, parece que é mais conveniente flagelar-se com cordas delgadas que dão dor por fora, e não de outra maneira que cause enfermidade notável por dentro.
A primeira nota é que as penitências exteriores se fazem principalmente para três efeitos:
– primeiro, para satisfação dos pecados passados; – segundo, para vencer-se a si mesmo, a saber, para que a sensualidade obedeça à razão e todas as partes inferiores estejam mais sujeitas às superiores;
– terceiro, para buscar e achar alguma graça ou dom que a pessoa quer e deseja, como, por exemplo, se deseja ter interna contrição de seus pecados, ou chorar muito sobre eles ou sobre as penas e dores que Cristo nosso Senhor passava na sua Paixão, ou para solução de alguma dúvida em que a pessoa se acha.
A segunda nota é para advertir que a primeira e segunda adição se hão de fazer para os exercícios da meia noite e da manhã, e não para os que se farão noutros tempos; e a quarta adição nunca se fará na igreja, diante de outras pessoas, mas em particular, como por exemplo em casa, etc.
A terceira nota é que, quando a pessoa que se exercita ainda não acha o que deseja, como lágrimas, consolações, etc., muitas vezes é proveitoso fazer mudança no comer, no dormir, e noutros modos de fazer penitência; de maneira que nos mudemos, fazendo, dois ou três dias, penitência, e outros dois ou três, não; porque a alguns convém fazer mais penitência e a outros menos; e também porque, muitas vezes, deixamos de fazer penitência, por amor dos sentidos e por juízo errôneo de que a pessoa não a poderá tolerar sem notável enfermidade; e, outras vezes, pelo contrário, fazemos demasiada, pensando que o corpo a possa suportar; e, como Deus nosso Senhor conhece infinitamente melhor a nossa natureza, muitas vezes, nas tais mudanças, dá a sentir a cada um o que lhe convém.
A quarta nota é que o exame particular se faça para tirar defeitos e negligências nos exercícios e adições; e o mesmo se diga na segunda, terceira e quarta semana.