quarta-feira, 13 de junho de 2012

Santo Antônio



1. A característica peculiar que se apresenta como constante nos dados biográficos deste Santo, e que de modo claro o distingue no panorama embora tão vasto e quase infindo da santidade cristã. Antônio — vós bem o sabeis — em todo o arco da sua existência terrena foi um homem evangélico; e se como tal o honramos é porque acreditamos que nele pousou com particular efusão o Espírito mesmo do Senhor, enriquecendo-o dos seus admiráveis dons e estimulando-o "desde o interior" a empreender uma ação que, muito notável nos quarenta anos de vida, longe de ser exaurida no tempo, continua, vigorosa e providencial, também para os nossos dias.
Ao dirigir a minha afetuosa saudação a quantos estais agora reunidos em redor do altar, convido-vos em primeiro lugar a meditar precisamente sobre a característica da ação evangelizadora, que constitui também a razão pela qual Antônio é proclamado "o Santo".
Sem fazer exclusões ou preferências, é um sinal, este, que nele a santidade atingiu vértices de excepcional altura, impondo-se a todos com a força dos exemplos e conferindo ao seu culto a máxima expansão no mundo. De facto, é difícil encontrar cidade ou país do mundo católico, onde não haja pelo menos um altar ou uma imagem do Santo: a sua serena efígie ilumina com um suave sorriso milhões de lares cristãos, nos quais a fé alimenta, por seu intermédio, a esperança na Providência do Pai celeste. Os fiéis, sobretudo os mais humildes e indefesos, consideram-no e sentem-no como o seu Santo: pronto sempre e poderoso intercessor em favor deles.
2. Exulta, Lusitania félix; o felix Padua, gaude, repetirei com o meu Predecessor Pio XII (cf.Litt. Apost. de 16 de Janeiro de 1946 em AAS XXXVIII, 1946, p. 200): exulta, nobre terra de Portugal, que na falange numerosa dos teus grandes missionários franciscanos tens como chefe de grupo este teu filho. E alegra-te tu, Pádua: às glórias da tua origem romana, ou melhor pré-romana, aos faustos da tua história ao lado da vizinha e amiga Veneza, tu acrescentas o nobilíssimo título de conservar, com o seu sepulcro glorioso, a viva e palpitante memória de Santo António. De ti, com efeito, o seu nome difundiu-se e ainda ressoa no mundo por aquela característica peculiar, já por mim recordada: a genuinidade do seu perfil evangélico.
Um vasto âmbito, em que se manifestou melhor tal ação evangelizadora de Santo António, foi sem dúvida o da sagrada pregação. Aqui, de facto, no sábio e corajoso anúncio da Palavra de Deus, encontramos um dos traços salientes da sua personalidade: foi a incansável actividade de pregador, juntamente com os seus escritos, que lhe mereceu o apelativo de Doctor Evangelicus(cf. AAS XXXVIII, 1946, p. 201). Passava — anota o biógrafo — por cidades e castelos, vilas e campos, por toda a parte espargindo as sementes da vida com generosa abundância e com férvida paixão. Neste seu peregrinar, recusando todo o repouso por causa do zelo das almas..." (Vita Prima ou "Assídua" 9, 3-4).
A sua pregação não era declamatória, ou limitada a vagas exortações para se levar uma vida boa; ele entendia anunciar verdadeiramente o Evangelho, bem sabendo que as palavras de Cristo não eram como as outras palavras, mas possuíam uma força que penetrava os ouvintes. Por longos anos dedicara-se ao estudo das Escrituras, e precisamente esta preparação consentia-lhe anunciar ao povo a mensagem de salvação com excepcional vigor. Os seus ardorosos discursos agradavam ao povo, que sentia íntima necessidade de escutá-lo e não conseguia, depois, subtrair-se à força espiritual das suas palavras.
Pode-se dizer, portanto, que ao estilo evangélico, próprio do discípulo peregrinante de cidade em cidade para anunciar a conversão e a penitência, correspondia o conteúdo evangélico: formado no estudo da Escritura que sugerira ao Pontífice Gregório IX o epíteto para ele de "arca do Testamento", era sobretudo a pura doutrina de Jesus Cristo que ele repropunha na pregação aos homens do seu tempo.
3. Ao ministério da palavra António soube unir, exercendo nisto o mesmo zelo, a administração do Sacramento da penitência. Grande no púlpito, ele não foi menos grande dentro do confessionário, coordenando quanto por lógica sobrenatural deve ser e permanecer unido. Pregação e ministério da confissão, de facto, colocavam-se como dois momentos de uma actividade pastoral que tem no fundo o mesmo objetivo: o pregador antes semeia a palavra de verdade, corroborando-a com o seu pessoal testemunho e com a oração; e ele mesmo recolhe depois os frutos como confessor, no momento em que recebe as almas sinceramente arrependidas e as oferece, para o perdão e a vida, ao Pai das misericórdias.
Fácil e natural era para António a passagem de um para o outro ministério: já pregando ele falava com frequência da confissão, como confirmam os seus Sermões, onde são raras as páginas que disto não contenham algum aceno. Mas não se limitava a exaltar as "virtudes" da penitência, nem só recomendava que os seus ouvintes a frequentassem. Pondo pessoalmente em prática as suas palavras e exortações, era muito assíduo em administrar o Sacramento. Havia dias em que António confessava sem interrupção até ao pôr do sol, sem tomar alimento. Sabemos, além disso, que "ele induzia a confessar os pecados uma tão grande multidão de homens e de mulheres a ponto de não serem suficientes para os atender nem os frades, nem outros sacerdotes que em grande número o acompanhavam" (cf. Vita Prima ou "Assídua" 13, 13).
Verdadeiramente para ele, segundo as suas mesmas palavras, "casa de Deus" e "porta do Paraíso" era a confissão numa visão de fé tão viva, que ao aspecto sacramental e canónico (tão aprofundado pela teologia medieval) impunha como apogeu o afectuoso encontro com o Pai celeste e a confortadora experiência do seu generoso perdão.
Na luz de António ministro do sacramento da Penitência, como não recordar nesta Cidade de Pádua um outro religioso da família franciscana, o beato Leopoldo Mandic de Castelnuovo, o humilde e silencioso capuchinho que, na discrição da sua cela do convento de Santa Cruz, por dezenas de anos foi ministro da confissão, infundindo com o sacramento do perdão paz e serenidade a inumeráveis pessoas de todas as idades e condições?
4. São exemplos preclaros os de que estou a falar, caríssimos Irmãos e Irmãs, que me escutais. Mas ao encontrar-me no Templo que de António toma nome, permiti que, antes que aos Leigos, eu me dirija sobretudo a vós, Religiosos que atendeis a estes ministérios "ex officio", e também a vós. Sacerdotes diocesanos de Pádua e do Véneto.
Pregação e Penitência: eis um grande binómio de pura matriz evangélica, o qual pela luminosa prática de António vos é proposto, sendo plenamente válido e urgente para os nossos dias, embora tão diferentes dos seus. Os tempos mudam; podem mudar, e de facto mudam segundo as sábias indicações da Igreja, métodos e formas da acção pastoral: mas os princípios fundamentais dela e, sobretudo, a regulamentação sacramental permanecem imutáveis, como imutáveis permanecem a natureza e os problemas do homem, criatura que está no vértice da criação divina, embora sempre exposta à dramática possibilidade do pecado. Isto quer dizer que também ao homem de hojeurge anunciar, inalterado no seu conteúdo, o querigma de salvação (eis a pregação); também ao homem pecador urge oferecer hoje o instrumento — sacramento da Reconciliação (eis a penitência). Enfim, permanece ainda hoje necessária a actividade de evangelização na dúplice direcção do anúncio e do oferecimento de salvação.
As celebrações antonianas não terão sido apenas uma comemoração, se em todos vós Sacerdotes, seculares ou regulares, for desenvolvida a consciência destes dois ministérios irrenunciáveis e preciosos, e se em vós leigos for aumentado o desejo, ou melhor, a necessidade de aproveitar deles para o vosso espiritual progresso. Não é talvez verdade que tantas vezes uma boa confissão se coloca neste mesmo processo como ponto de partida ou de chegada? Tudo isto — notai — sempre na linha evangélica da penitência-conversão.
Se Deus quiser, no Outono do próximo ano, realizar-se-á uma nova sessão do Sínodo dos Bispos, que será dedicada à penitência e à reconciliação. Depois dos grandes temas da evangelização, da catequese e da família, pareceu oportuno examinar sob todos os seus aspectos, não último aquele pastoral-sacramental, este grave argumento que empenha tão enormemente a vida e a ação da Igreja no mundo.
Em vista deste evento eclesial, na luz do Centenário Antoniano, a todos vós aqui presentes digo que deveis reflectir sobre o inefável dom da Reconciliação: exorto os Sacerdotes a serem sempre zelosos ministros dela (cf. 2 Cor 5, 18-19), como exorto os fiéis a serem sempre disponíveis e dóceis: "Deixai-vos reconciliar com Deus" (ibidem., 20).

 Papa João Paulo II